Café é Celebração

Desde que foi descoberto como bebida, o café sempre teve um papel importante como um ritual de sociabilidade. A partir de meados do século 15, o hábito de se beber café em estabelecimentos especializados se popularizou como uma forma de reunir as pessoas. Primeiro os restaurantes, os bares e, tempos depois, as próprias cafeterias, que nasceram para elevar o rito social.

No começo, filósofos o bebiam para permanecer acordados para discussões e práticas de exercícios espirituais. Intelectuais de todos os tipos se reuniam em volta de mesas regadas a muitos litros de café para debater sobre os rumos do mundo e da sociedade. Artistas pediam suas xícaras para repor as energias – muitos para curar suas ressacas. Escritores e poetas como forma de buscarem suas inspirações.

Desde que passamos a beber café por prazer (e se você está aqui, lendo esse texto, é porque tem prazer em beber café, como eu), buscamos fazer isso só do lado de pessoas das quais gostamos ou que respeitamos. A verdade é que convidar alguém para um café é uma proposta bem pessoal, íntima, até. O ato do café pressupõe conversa, empatia, interesse na outra pessoa. Um amigo, um colega de trabalho, um cliente. Ninguém toma café com quem não gosta ou com quem não quer.

No âmbito familiar, o café é uma memória afetiva. O aroma do café “passado” na hora, fresquinho. Há quem se lembre da casa da vó, há quem pense na mãe, no pai… Café tem cheiro de lar, de aconchego. Uma xícara logo traz um bolo, um doce, um papo, uma risada. Às vezes é de amargar, quando a bebida é ruim; mas mesmo assim vale pelo momento.

Ainda que fazer seu ritual em casa sozinho proporcione uma ótima sensação de hedonismo próprio (acordar, moer o grão, colocá-lo dentro do filtro, ferver a água, despejá-la e se servir de uma caneca cheia), ter alguém com quem dividir os mililitros da bebida sempre é mais compensador, emocionalmente dizendo. Pode reparar: quando se tem uma visita em casa para quem fazer café, até o gosto da bebida muda – e não é uma afirmação sem fundamento: quem diz é o médio e escritor Stephen Braun, em seu livro Buzz: The Science and Lore of Alcohol and Caffeine (algo como Rumor: A ciência e a tradição do álcool e da cafeína, em tradução livre), sem edição no Brasil.

Ele se propõe a, entre outras coisas, pesquisar a relação dessas drogas (cafeína é droga, não podemos esquecer!) com a sensação de felicidade. E compartilhar, no caso do café, é algo que estimula a percepção dos hormônios de alegria que a cafeína “acorda”, por assim dizer. Até por isso, há quem prefira tomar café na rua, para poder trocar uma ideia com o barista, para receber um “bom dia!” da moça do caixa. É como se o fator social fosse um acelerador do prazer que o café proporciona.

Tá, mas e por que estou falando disso agora? Bom, pra mim, final de ano sempre foi a celebração máxima dos rituais da sociabilidade, quando reunir a família inteira no Natal em torno da ceia, confraternizar com as pessoas que amamos e fazer um balanço do ano (que não foi lá muito bom, mas que teve boas xícaras, reconheçamos) são formas de renovar as energias. Ou seja, é a melhor hora do ano para fazer um café bem caprichado e dividi-lo com quem realmente merece uma xícara dele: pode ser depois da ceia, no dia seguinte, ou quando quiser. Tudo isso para deixar que a cafeína haja, que os ânimos se renovem e que o sentido de união esteja sempre em voga. Bom café, bom Natal e que venham muitas xícaras em 2017. Vamos precisar!


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